segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Açores - São Miguel

Meus caros, a última viagem foi para perto, foi literalmente para fora cá dentro. Por incúria ou estupidez, há destinos que temos deixado por riscar no mapa; talvez porque o choque cultural de ir para “fora” é mais atrativo ou porque temos ideia que em Portugal já conhecemos tudo. No entanto, tomámos a (boa) decisão de ir finalmente conhecer os nossos compatriotas das ilhas, neste caso, Açores, São Miguel. Tínhamos uma semana e várias ilhas; optámos por nos manter por São Miguel, e foi a escolha correta.

Antes de avançar com fotos e descrições diárias, deixem-me dizer assim a frio e sem rodeios: São Miguel é o sítio mais bonito que conhecemos (em termos de paisagem e natureza) e tem as pessoas mais simpáticas! Além disso, é correto dizer que se trata de um destino amigo do turista. Para aqueles que não dispensam a ajuda da agência, ou que têm medo de ir para um local sem ter o típico roteiro turístico com excursões e viagens organizadas, este local é o nível 0 para quem quer viajar autonomamente. A ilha é pequena, e a única coisa que precisam é ter carta de condução e alugar carro. Tudo está assinalado e basicamente tudo é servido pela mesma estrada. Para quem não gosta ou não pode meter-se nessa canseira que é o trekking, o carro é a solução que vos permite ir a todo o tipo de miradouro e conhecer todos os ângulos. Mesmo locais que até deveriam estar resguardados do trânsito, são acessíveis por carro (podem é ter algumas surpresas depois para o tirarem…). E claro, não precisam trocar moeda, preocupar-se com roamings, ou saber falar outra língua.

Posto isto, se quiserem fazer uns trilhos e umas incursões mais profundas nas serras vales e crateras, uma semana é o tempo ideal. Se apenas fizerem a tal abordagem automobilística, talvez vos sobre 2 ou 3 dias para visitar outra ilha.

Levámos na bagageira impermeáveis, agasalhos e botas para a chuva. Nada disso... Apanhámos ótimos dias de sol e calor. Alguma chuva ocasional ao final do dia e umas manhãs enubladas, mas nada de especial. 

Dia 1
No primeiro dia fomos diretamente ao miradouro Vista do Rei, local privilegiado para ver as Lagoas das 7 cidades e onde toda a gente tira a foto típica (normalmente com nuvens). Surpresa, vista desimpedida e clara. Estava de tal forma bom tempo, que pensámos “antes que chova, vamos mas é fazer-nos aos trilhos. E assim foi, um trilho que acompanha a lateral da cratera, e onde temos sempre uma vista incrível para a mesma. Andámos vários kms até chegar ao fundo, a Sete Cidades propriamente dita. Um vilarejo que parece um aldeamento turístico, com uma área verde enorme que beija a lagoa e onde podemos descontrair, andar de canoa, fazer um pic nic etc.







Para voltar ao topo é que foi o problema; o percurso é linear e o regresso implica subir os vários metros já descidos, por vários kms de estrada estreita e movimentada, com o sol a pôr-se e o vento frio a oferecer uma constipação (que eu aceitei…). MAS, primeira constatação da simpática açoriana: sem que levantássemos o polegar, ofereceram-nos boleia! MAIS, ofereceram uma pequena tour turística onde nos apresentaram os principais pontos, miradouros e dicas para o resto dos dias. Ainda nos sobrou tempo para ir ao Miradouro da Lagoa do Canário, e à Lagoa propriamente dita. O tempo já estava escuro e feio, pelo que decidimos repetir a visita num dia posterior.



Dia 2
Houve uma prova de BTT neste dia e aproveitámos para ver a malta fazer umas derrapagens e uns saltos. Para quem gosta de BTT, a ilha deve ser uma espécie de paraíso. Fantásticos trilhos, vistas, descidas, etc. Quando as estradas ficaram abertas de novo, regressámos novamente ao miradouro Vista do Rei, onde está o Hotel Palace (saber mais). Uma história incrível e curta, com final triste, de um outrora luxuoso e enorme hotel, agora abandonado.



Próxima paragem, Mosteiros. Uma pequena localidade aparentemente piscatória, com a famosa praia de areia preta. É engraçado imaginar os putos no verão cheios de areia colada ao corpo… preta! Mantendo-nos nesta ponta da ilha, temos as Termas da Ferraria. Não visitámos as termas propriamente ditas, mas tentámos a nossa sorte na pequena baia natural no meio das rochas. Uma pequena piscina natural, onde, NA MARÉ BAIXA, a água é quente. Na maré cheia, é tão quente como a água do mar… Enquanto que o mais aventureiro mergulhou na mesma nestas águas frias (ainda que mais quente que as do atlântico continental) o outro foi por os pés nas poças de água onde habitavam peixinhos pequenos que nos comem os pés! Um SPA à borla.


De volta ao centro de Ponta Delgada, visitámos as Grutas do Carvão. A visita é rápida, a gruta é pequena, mas é tudo bem explicado e muito educativo, vale a pena. Existe um outro tipo de visita, mais longo, e não aconselhável para claustrofóbicos; ah! E se ainda assim optarem por esta visita mais espeleológica, levem roupa velhinha que não se importem de rasgar…
Entre os vários produtos autóctones dos Açores, o mais curioso é o ananás. Um fruto que demora ano e meio (!) a produzir, e que dá origem a doces, licores, gelados, sumos, etc. há varias plantações e algumas estão abertas ao público. A plantação de Fajã, Arruda, é uma delas. A entrada é gratuita e por essa razão sentimo-nos obrigados a comprar algo na loja de gifts. Optámos pelo óbvio doce. Custa-me dizê-lo, mas não gostámos… o que gostámos sim foi de ver as estufas e perceber como se desenvolve este fruto.



A noite chegava e ainda não tínhamos conhecido Ponta Delgada. Uma voltinha a pé pela marginal permitiu tirar umas fotos e ver onde se concentrava a “movida”. O ponto mais fotogénico são as Portas da Cidade. De resto, é percorrer as ruinhas estreitas na parte histórica e conhecer as várias igrejas, a mais central sendo a de São Sebastião.

Para comer, há muita oferta, os preços são semelhantes aos do continente, e as opções devem recair sobre pratos de peixe, e sobre a espetaular carne das vaquinhas felizes!



Dia 3
Iniciámos o dia a moer o pequeno almoço, num percurso pedestre que visita as Lagoas das Empadadas. Um percurso lindo, bem assinalado, e que permite vistas únicas. A quantidade de verde, a irregularidade do terreno, e a morfologia vulcânica permitem paisagens arrebatadoras! Ainda com forças, atirámo-nos de cabeça a um outro trilho, da lagoa do canário, mas desta feita saiu furado. As marcações não existiam, e acabámos por inventar o trilho.. passando por zonas que estavam vedadas e eram reservadas a funcionários camarários… que simpaticamente nos indicaram a saída.


Estávamos cansados e decidimos ir até a Sete Cidades relaxar um pouco com umas remadas num kayak. Mas como estavam cheios, sabíamos que existia um túnel por ali perto, que serve de escoamento às águas da Lagoa. Decidimos arriscar e entrámos no escuro! O túnel tem vários metros (eu arriscaria em km…). Dá para ver sempre a “luz ao fundo do túnel”. Não tem bicharada (que víssemos) mas… no outro lado, já no fim, não era possível caminhar pois havia lama até aos joelhos. Voltar para trás era dar parte fraca pelo que arriscámos num pouco de equilibrismos e fizemos o resto em cima dos tubos mais elevados. Claro que do outro lado havia um grande e surpreendente nada! Para voltar para trás tínhamos a estrada (que haveria de cobrir vários kms), tínhamos um trilho que parecia regressar por cima do túnel (errado… nem percebemos onde é que ia dar) ou voltávamos ao túnel…….. e assim foi, grande seca.

Depois sim, fomos até a Lagoa, comemos um gelado e estivemos a relaxar um pouco no relvado. Aproveitámos também para dar uma olhadela ao centro da vila, onde está a igreja de São Nicolau. Já com o final do dia, e já que ali estávamos, passeamos um pouco à beira das lagoas, nomeadamente da lagoa verde (já que a outra é a lagoa azul), onde existem constantes locais para fazer churrascadas e pic nics. A cor das lagoas tem origem mítica numa história de choros e lágrimas provenientes de olhos azuis e verdes


Dia 4
Rumámos a norte, a zona mais austera e genuína de São Miguel. Se pararem em todos os miradouros que aparecem, podem arranjar sítio para jantar pois levam o dia todo. O primeiro que apanhámos foi o miradouro do navio, por razoes óbvias (que podem verificar na foto). A seguir Percurso dos Moinhos do Crim. Embora difícil, permitiu uma vista mesmo à beirinha da costa, no meio da natureza e de imensos grilos! Em Ribeira Funda exista também uma cascata, com acesso em alcatrão, mas com um desnível que o nosso Micra poderia não conseguir ultrapassar; fomos a pé…



Se gostam de chá, é obrigatória a visita a fábrica de chá da Gorreana (ou Porto Formoso). Embora esta última seja mais pequena, dizem que a malta explica o processo com mais detalhe. Embora seja grátis, a visita peca precisamente por andarmos um pouco perdidos e a tentar perceber os vários processos de fabrico.
Mesmo à saída existe um trilho supostamente marcado, que passa pelo meio da plantação. Era atrativo mas acabou por se revelar um caminho de “m$#%&”. Literalmente. As marcações a certa altura desapareceram e quando demos por nós estávamos no meio do gado vacum, com os pés atolados na lama e nos resíduos orgânicos! Ainda assim conseguimos fantásticas vistas das plantações.



Uma vez que o dia estava a cair fomos ainda mais para o nordeste, e passámos antes por Ribeira Grande, onde encontram uma grande Igreja e uma bonita zona ribeirinha. Passamos também por aquela que é a região mais autêntica, hardcore, rude e rija e bairrista de São Miguel: Rabo de Peixe. Onde tivemos a sorte de apanhar a festarola da terra, o que significou encontrar a igreja mais iluminada que alguma vez vimos. É uma típica terra de pescadores, em que nos sentimos algo intimidados e forasteiros ao passar no meio da povoação.


Dia 5
Era o dia de ir até ao parque da Caldeira Velha, mas antes tínhamos tempo de dar um salto ao Salto do Cabrito. Local onde podem ver uma cascata e onde podem fazer novo trilho, por uma ponte de ferro, e para dentro da mata. Ficámo-nos pela ponte de ferro, pois às 9 tínhamos banho quente na Caldeira :).



Quando entrámos no parque reparámos logo no fumo típico destes lagos vulcânicos. Uma das caldeiras tinha água a ferver (interdita a banhos por questões de fixação da pele ao corpo), e tinha uma outra poça, mais pequena, onde se poderia tomar um banhinho quente. Mas nós guardámo-nos para a caldeira maior, que acabou por se revelar uma desilusão, pois a água estava fria! Entre vai e não vai a tal poça mais pequena ficou cheia e acabámos por não pôr o corpo de molho em nenhuma… é possível fazer uma visita à nascente da Caldeira, a qual queríamos fazer, mas que naquela manha não foi possível por motivos técnicos…. Foi um pouco frustrante.




Era hora da Lagoa do Fogo. Com um miradouro fantástico, e com um difícil trilho até ao fundo da Lagoa, o local é solicitado. Chegando ao fundo, é quase obrigatório parar um pouco e relaxar na beira da Lagoa. Do outro lado da mesma existe inclusive algo semelhante a uma praia. Descansem um pouco pois terão que subir o ingreme e lamacento trilho de novo. Força nas pernas e vontade em alta, siga para o Parque dos Caldeirões. Um sítio saído da Alice no país das maravilhas. Muito verde, flores, ribeirinhos e cascatas, moinhos e lagoas. Um sítio para estar e comer um gelado feito nos Açores (não me lembro a marca mas era feito lá, com forte componente de lacticínios). Atrás da cascata há um trilho que pouca gente conhece e que vai dar a uma cascata/lagoa mais reservada.






Ainda deu tempo de espreitar o farol do Arnel; que tem um acesso por estrada com uma inclinação que exige aderências extremas… por fim, já com alguns chuviscos, o Miradouro da Ponta do Sossego, que além do miradouro, tem um bonito e relaxante parque verde, com mesinhas e grelhadores. Um sítio para fazer uma agradável churrascada.




O dia acabou da melhor forma possível: em banho maria na Poça da Dona Beija. Para nós o ex libris da viagem. Claro que todos temos uma banheira em casa que podemos encher com água quente. Mas estar naquelas poças (agua límpida e sem cheiros esquisitos!), ainda por cima à noite, é transcendente! Não sei quanto tempo estivemos lá, mas deu para ficar com a pele engelhada! É muuuuito relaxante. Foi difícil voltarmos ao hotel…

Dia 6
Lagoa das Furnas: tem um percurso que rodeia toda a lagoa, com algumas esculturas de madeira pelo caminho, com um parque de interpretação, com baloiços e com a igreja da nossa Senhora das Vitorias (fechada) e com uma das maiores araucárias da europa (árvore :)) . O percurso passa também pelas próprias fumarolas onde fazem o famoso cozido (que comemos posteriormente). Para verem o retirar das panelas convém estarem por lá por volta do meio dia. Mantendo a mesma linha vulcânica, dirigimos para as caldeiras das Furnas, onde podem ver várias caldeiras com diferentes tamanhos e diferentes perigosidades ao nível da temperatura.



Aguardava-nos outro banho quente, no Parque Terranostra. Um enorme e bonito parque verde, que pode levar 2hr a ser visto ou mais. Nós não tínhamos tanto tempo e quisemos ir para dentro de água por isso encurtámos a visita e mergulhámos no enorme lago de água quente (aqui sim, amarela; capaz de manchar até os pelos do peito). Não é tao relaxante ou agradável como a D Beija, mas também é giro (o vosso fato de banho não vai achar o mesmo…).


Já num estilo de viagem meramente automobilístico passámos na praia do fogo só para perceber se conseguíamos encontrar uma praia mais ao nosso estilo. Mas mantinha-se a areia preta e pouco areal.

Dia 7
Outra praia visitada, Praia de Agua d´Alto, em Vila Franca. Hoje o dia seria mais relaxado e não tínhamos programado nada em concreto. No entanto, ao passear perto da marina de Vila Franca percebemos que ainda se fazia a travessia para o Ilhéu. Decidimos ir. O ilhéu é uma espécie de piscina gigante natural, rodeada por cumeeiras, com uma água super cristalina, onde o banho é quase obrigatório (sendo que se tivermos uns óculos para snorkeling o tempo ainda é melhor aproveitado). Não há mais nada na ilha de qualquer forma, 1hr, 2hr no máximo, deverá chegar para visitar. Se pretendem um dia tipo praia, para estender a toalha e apanharem sol, o horário do ferry é o vosso limite…
Voltando à vila, subimos (de carro) até à magnífica Igreja da Nª Srª da Paz. Com uma brilhante escadaria que faz lembrar a igreja de Lamego, conseguimos atingir o topo e ter a melhor vista sobre a cidade, e o respetivo ilhéu.




Dona Beija, here we go again!!! Mais 1hr de molho e de relaxe neste último dia.

Fantástico! Vão lá pessoal, é a nossa terra, e é linda!

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